Nunca acreditei na história de que os opostos se atraem. Pode até ser que, num primeiro momento, a possibilidade de conhecer o diferente possa aguçar a curiosidade e parecer muito atraente. Mas, em longo prazo, não é viável. É um tipo de relacionamento em que, via de regra, alguém tem que ceder. Porque no início, até pode ser que um aceite fazer as vontades do outro, naquele ímpeto apaixonado de agradar e fazer a pessoa amada feliz. Mas será que essa vontade perdura por tanto tempo quanto durar o relacionamento?
Pessoalmente, sou pelos relacionamentos em que as pessoas se completam. Não precisam combinar em tudo, mas ter afinidade, pensar em sintonia, é fundamental. No meu caso, gostar de livros - e obviamente, de discuti-los comigo - é um dos pré-requisitos. Ser alguém com que eu goste de conversar, seja sobre o assunto que for, também. Porque não vejo outra forma de eu não perder o interesse, passado o furor inicial.
E aí, vem um balde de água fria para congelar tudo o que eu penso sobre o assunto. Porque desde que eu vi aquela foto, e parti em uma busca desesperada por mais detalhes, como uma verdadeira perseguidora profissional, eu venho tentando entender. Entender a lógica da coisa. Entender o que se passa na sua cabeça.
Dentre tantas outras lembranças bestas que vez ou outra vêm me incomodar, como uma mosquinha que voa ao seu redor e não deixa você se concentrar, a que vem se repetindo nonstop é a de nossas mil discussões que acabavam não levando a nada, mas eram gostosas de se ter. Sobre tudo, na verdade. Séries que a gente acompanhava e tentava adivinhar o final (e que, a bem da verdade, de vez em quando eu roubava, lendo um spoiler aqui e ali, para ganhar a discussão). Filmes que um “obrigava” o outro a assistir, e que, no fim, acabava agradando a ambos. Livros que a gente lia e precisava conversar sobre.
Como das muitas horas discutindo a Crônica do Matador do Rei, com você formulando teorias mirabolantes que ou eu não conseguia acompanhar, ou considerava fantasiosas demais. E você falava que eu perdia os detalhes da história d’O Temor do Sábio porque lia rápido demais e não prestava atenção. O que de certa forma era verdade, mas eu jamais admitiria em voz alta.
Ou de quando a gente fazia maratona de seriados como Dexter e afins, e eu sempre queria ver mais um episódio mas “está muito tarde, a gente tem que dormir, amor”. Ou, ainda, de quando você me fez assistir a The Walking Dead, mesmo eu dizendo mil vezes que não, não ia assistir, porque tinha medo, mas acabei viciando e agora não consigo assistir sozinha.
Eu era mais culta que você. Gente de humanas, sabe como é. Mas você tem tiradas inteligentes e volta e meia me surpreendia com o raciocínio rápido. A gente dava samba. A gente se completava. Eu tinha o que você não tinha. Você tinha o que eu precisava. Um encaixe perfeito, em todos os sentidos.
Você dizia que eu era interessante e se orgulhava quando seus amigos me elogiavam, seja por eu saber explicar o que é um objeto fálico, por conhecer o significado da palavra "defenestrar", por ser capaz de construir uma frase incluindo "randômico" ou mesmo por não passar tanta vergonha jogando WoW com eles.
Por tudo isso, quando eu descobri que você estava com outra, a quem eu já me referi com mais nomes feios do que me orgulharia em confessar, eu dei uma risadinha maldosa e pensei, cá comigo, que era fogo de palha, como as tantas outras de que você sempre se cansava após algumas semanas, a quem chamava de "lanchinho da madrugada" e outras expressões pouco elogiosas.
No íntimo, achei que não ia durar. Que ela era muito pouco para você. Sobretudo, que ela era muito pouco comparada a mim. Logo ela, que combinava a sombra verde com a blusa verde, e saía com você fazendo cosplay de planta. Logo ela, que desfilava em escola de samba, enquanto você detestava o carnaval tanto quanto eu. Logo ela, que parecia inferior em todos os aspectos em relação a mim. Porque no meu mundo não existe sororidade quando o assunto é a pessoa que a gente ama.
E aí você vem e confunde tudo, e faz tudo o que eu achava cair por terra e pensar que, afinal, talvez os opostos realmente tenham uma quedinha um pelo outro e eu seja apenas uma menina boba que não sabe nada sobre o amor.


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