A chuva cai lá fora, e escorre pela janela do apartamento
minúsculo, fazendo o som característico que o vidro anti-ruídos não consegue
disfarçar. Este som costumava ser sinônimo de tranquilidade, de uma paz que só
quem já passou longas madrugadas chuvosas acordada consegue reconhecer. Hoje,
porém, o ruído calmo da chuva não significa nada além de solidão. E é estranho,
não é, como a paz e a solidão podem, muitas vezes, se confundir?
No cinzeiro sobre a mesa do computador, jazem os cigarros
acesos na última meia hora. Os primeiros da noite serviram como um bálsamo, um
alento para a ansiedade que tinha nome e sobrenome. Os últimos foram acesos e
tragados no automático, meio como quem não tem nada melhor para fazer, afinal.
O dia já não havia começado bem, com o trânsito
costumeiramente caótico, agravado pelo temporal. Mas terminou bem pior na volta
para casa. Não que tenha acontecido algo de ruim. Na verdade, tudo se passou
dentro de sua cabeça. O que, é claro, não torna o problema menos real.
Ocorre que ela estava distraída, mexendo no celular ou
observando a chuva cair lá fora, ou ambos. Tão distraída que não foi capaz de
ver o rosto do rapaz que se sentara no banco à frente. Só reparar nele algum
tempo depois, quando uma freada mais brusca a obrigou a se segurar firme. E foi
aí que ela viu... quem?
Teve a impressão que era ele, o homem que fingia ter
esquecido, que quando perguntada, soltava um “pff! É passado!”, mas que, no
fundo, ainda fazia parte do seu mundo. Bateu o dèja-vu: não tinha sido, afinal,
em um ônibus, que eles haviam se reencontrado na época da faculdade, após anos
e anos sem se ver? Não tinha sido numa linha que ligava a zona norte à zona sul
que tudo começou a começar?
Não tinha certeza se era ele, pois estava de costas, tão
absorto nos próprios pensamentos quanto ela mesma estivera alguns minutos
antes. Mas a semelhança era inegável.
No alto da cabeça, o mesmo redemoinho querendo se tornar um
princípio de calvície, em que ela tanto gostava de deslizar sua mão. O mesmo
corte de cabelo, os mesmos fios castanhos, rebeldes, pedindo um bom corte. A mesma
barba por fazer, com que ela tanto implicava e sempre dava um jeito de
intimá-lo a raspar. Os mesmos oclinhos de Harry Potter cujas lentes ela já
tinha ajudado a arranhar, se embolando com o moço na areia (e foi com um certo rubor que ela se lembrou disso). O mesmo tênis que
ela ajudara a escolher quando ele decidiu se mudar para outra cidade e abandoná-la
no Rio, apenas nove meses depois de ter jurado que jamais iria fazê-lo. Os
mesmos detalhes que ela amava odiar.
Ele olhava para os lados, meio como se estivesse procurando
alguma coisa. Será que a havia reconhecido? Será que estava sem graça de falar?
Ou será que estava simplesmente pensando na moça das fotos, que combinava a
sombra verde com a blusa da mesma cor, que tinha cara de nunca ter lido um
livro na vida e, ainda assim, tinha tomado o seu lugar? Aliás, por falar nisso,
o que ele estava fazendo naquele ônibus, se trabalhava do outro lado da cidade?
Os minutos passaram. A chuva foi apertando. Em algum ponto
da Atlântica ele resolveu descer. Pegou a mochila e fez o sinal. E quando
finalmente ela pôde ver seu rosto... é, alarme falso. Era só alguém muito
parecido com ele. Ou, talvez, ela desejasse tanto encontra-lo que sua mente
pregava essas peças. Uns três pontos depois, ela também saltou. Por sorte, o
ônibus a havia deixado na esquina de casa. Apenas alguns passos e ela poderia
afogar as mágoas em chá. Ou, como acabou acontecendo, incinerar as mágoas em
maços e maços de cigarro.
E agora, ela estava ali, olhando imóvel para a tela do
computador e ouvindo a chuva cair, sem se mostrar particularmente interessada.
Era apenas a trilha melancólica para seu drama particular. Naquela noite tudo o que ela queria era um rivotril, ou
dois. Mentira, tudo o que ela queria era não ter que dormir sozinha na cama que
já parecia grande demais. Mas ia ter que se contentar com o travesseiro
ultra-macio, que custara uma pequena fortuna mas vinha cumprindo bem o papel de
confortá-la naquelas noites solitárias.
Amanhã, ela pensou, vai passar. E, naquele momento, ela não se referia somente à chuva.

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